A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.
A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades
contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do
ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o
desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem
na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em
volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes
vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há
a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura; combate-se,
atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os
desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam
ali com dor e com raiva.
À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos
(...) todos querem penetrar na arena, ambiciosos dos espectáculos
cortesãos, ávidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos
da vaidade.
Eça de Queiroz, in 'Distrito de Évora (1867)

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